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Notícias
Lenços de um amor que atravessa os séculos e permanece no ‘curação’ de Portugal
Outubro 10, 2018

 

Os galos dão o sinal de alvorada e a jorna começa à primeira luz do dia com o raiar da aurora. Ainda o sol espreita preguiçosamente pela linha do horizonte e a azáfama já começou. Alimentar os animais, ajudar com pastoreio, cozinhar, cozer a roupa, cultivar os campos… Um sem fim de tarefas que abraça sem receios. As mãos calejadas de quem tem que retirar da terra o sustento dizem tanto sobre a dureza da vida no campo, como da sua força de espírito. E talvez nem digam o suficiente. No final de mais um esgotante dia de trabalho, o corpo suplica por descanso, mas as suas preces não serão atendidas. O coração fala mais alto! Um som ensurdecedor que não permite ouvir mais nada. Pensar mais nada. Sentir mais nada. Nem sequer o cansaço. Sob a chama de uma luz tão trémula com as suas mãos cansadas, ainda encontra força para exprimir com as mãos aquilo que o coração sente.

É uma jovem rapariga do Minho como tantas outras que, talvez sem o saber, está à frente do seu tempo. Em pleno século XVII, dá o primeiro passo e declara-se ao amado, num ato claro de emancipação feminina. É com desenhos coloridos e carregados de um enorme simbolismo (o coração, a flor, o pássaro, a chave…) que borda num pequeno pano de linho o mar de sentimentos que lhe inunda o coração. A falta de escolaridade de uma mulher simples do campo reflete-se nos erros ortográficos das quadras que transportam as mensagens de amor. Mensagens que atravessaram os séculos e continuam no ‘curação’ dos vilaverdenses e dos portugueses em geral, já os Lenços se tornaram um dos maiores ícones culturais do país.

Queres namorar comigo?

Mas a história não acaba por aqui. Após largos meses de agulha em riste, aproveita alguma cerimónia pública (na maior parte dos casos de cariz religioso), para entregar o Lenço ao seu pretendido. Se ele o usasse em público na próxima ocasião, era sinal de que o amor era correspondido e assim começava o namoro, muitas vezes às escondidas. E nem poderia ser de outra forma no Minho do séc. XVII, uma região de fortes e rigorosos costumes católicos. Uma herança cultural que, não raras vezes, abordava fenómenos sociais marcantes, como o caso da emigração massiva para o Brasil: ‘Meu Manel bai pro Brasil/ Eu tamém bou no bapor/Gardada no coraçon/ Daquele qué meu Amor’.


Hoje, continuamos a bordar o amor de Portugal

Os Lenços que transportam sentimentos sobreviveram à erosão do tempo e assumem-se hoje como ícones da cultura portuguesa dentro e fora de portas. Continuam a ser reproduzidos e reinventados pelas mãos experientes das bordadeiras da Aliança Artesanal, que teve (e continua a ter) um papel determinante no processo de recuperação e preservação dessa bela e antiga forma de arte. Uma vez mais os Lenços são símbolo de emancipação feminina. Foi neste valioso legado cultural que estas artesãs encontraram meio de garantir o sustento e, em simultâneo, honrar a herança que receberam das antepassadas. (Tema que merecerá uma reportagem própria nos próximos dias).


Os sentimentos que conquistaram o país e o mundo

Uma tradição muito acarinhada pelo público, que foi divulgada, promovida e valorizada pelo Município de Vila Verde. A visão estratégica da autarquia vilaverdense resultou na criação de uma marca territorial, Namorar Portugal, sob a égide da genuína tradição do Minho. E os resultados estão à vista. Hoje, a tradição está mais viva que nunca. Artistas, empresas, artesão, associações e instituições inspiram-se nos Lenços do Amor para criar os mais diversos produtos. Pode encontrar os produtos no Espaço Namorar Portugal, em Vila Verde, nas inúmeras ações que anualmente se desenvolvem por todo o país ou a um clique de distância de qualquer ponto do globo em www.namorarportugal.pt.